sexta-feira, 18 de julho de 2014

MINHAS LEMBRANÇAS – O INTERNATO



O ano era 1966, na época eu tinha 8 anos. Tudo começou quando minha mãe adoeceu e o problema de saúde era muito sério, ela tinha que ficar internada no hospital de 4 a 6 meses.
Foi então que um senhor muito bondoso viu a nossa situação e nos ajudou. Conseguiu a vaga no hospital e uma no internato para mim. Como este senhor era da marinha e estava sendo transferido desta capital para outra, ele recomendou às freiras do internato que só a minha mãe me tiraria de lá quando recebesse alto do hospital. Meus pais eram separados, eu tinha mais três irmãos, os dois mais velhos ficaram com o meu avô e a mais nova foi para outro orfanato.
O senhor e sua esposa foram me deixar no internato, à tarde já caía, eles despediram-se de mim e foram embora. Foi a última vez que os vi e jamais os esqueci.
Quando entrei e fui passando pelos corredores frios, mas limpos e organizados, a tristeza era imensa. Só vinha a imagem da minha família, éramos tão felizes juntos e naquele momento estávamos todos separados. Por alguns minutos fiquei como se estivesse anestesiada, de repente voltei para a realidade com a voz da freira falando: suas coisas aqui, troque de roupa, lave as mãos e venha para o refeitório que já está na hora do jantar.
Por alguns instantes eu olhei ao redor e vi uma cama e um bidê (era assim que chamava um móvel tipo criado-mudo.).
Chegando ao refeitório tinha uma mesa enorme cheia de crianças ao redor sentadas, logo procurei um lugar e sentei. Em seguida fizeram a prece e começaram a comer. O cardápio era sopa de fruta-pão, o sabor era horrível! Mas, uma das meninas falou para eu comer tudo, que não podia deixar comida no prato ou ficaria de castigo sem a próxima refeição. Então, com muito sacrifício engoli a comida.
Após o jantar íamos lavar a louça, todo trabalho era dividido em grupos. Eu como era novata fui logo me entrosando no grupo de lavar a louça.
No dia seguinte acordei com uma campainha tocando, era hora de acordar e tomar banho. Fui ao banheiro e coloquei meu sapato em um cantinho no corredor, mas quando voltei não estava lá. Perguntei a uma menina se ela havia visto meu sapato. Ela falou que prenderam meu sapato, fiquei assustada e ela explicou que quando alguma coisa era deixada à toa por uma das internas as freiras prendiam o objeto e só devolvia depois de um mês. Achei aquilo muito injusto, pois havia acabado de chegar e não sabia de nada. Perguntei o que podia fazer e a garota respondeu que se eu pedisse desculpas à irmã Coração de Jesus, talvez ela me desculpasse, contudo todas morriam de medo dela.
Tudo ali era tão estranho e injusto. Procurei a irmã e pedi desculpas, expliquei que não sabia de nada e ela me desculpou dizendo: Desta vez passa!
O tempo foi passando e procurei me habituar naquela nova vida que no momento era ali, que não tinha como fugir daquele lugar. Guardei meu sofrimento e segui como uma criança normal, brincava quando podia, ia à escola, à missa e todos os dias tinha aula de bordado, ensaios no coral, grupos de teatro, e no sábado era o dia da faxina geral. Os domingos eram os dias de visita e apresentávamos nossas peças, músicas, vendíamos os bordados para arrecadar dinheiro e comprar materiais de higiene.
Eu sempre apresentava tudo com muita alegria, depois das apresentações quase todo mundo recebia visitas, menos eu e outra menina. Sentava-me em um banco perto das árvores e começava a chorar, chorava tanto que soluçava, ficava muito triste de não receber visitas e sabia que minha mãe estava doente.
Lá era muito rígido, aprendíamos a dobrar e guardar nossa roupa. Se fizéssemos errado toda roupa era jogada no chão para fazer tudo novamente. Na hora das orações das irmãs tinha que fazer silêncio total, no sítio não podíamos apanhar frutas fora de hora, um dia eu peguei uma fruta junto com as outras meninas e a irmã viu e perguntou quem havia pegado a fruta, mas ninguém respondeu só eu disse que havia sido eu e ela me deixou de castigo, sem lanche e sem recreio por três dias. E era assim.
Aconteciam muitas coisas estranhas, eu morria de medo de ficar sozinha naquele lugar. Uma vez eu estava perto da caixa d’água e senti alguém soprar no meu ouvido, como estava escuro tratei de sair de lá. No outro dia fui lá e olhei para dentro da caixa e vi uns botões do fogão que estávamos procurando. Alguém tinha jogado lá dentro, mas eu estava com medo de dizer pra que não pensassem que tinha sido eu. No entanto havia uma irmã em que eu confiava e contei para ela. Ela investigou e descobriu quem havia jogado.
Certa vez adoeci com caxumba e não podia sair do dormitório. Como todos os dias tinha missa à tarde eu ficava sozinha, então eu deitava e me cobria dos pés a cabeça. Quando todos voltavam da missa já iam se preparando para o jantar, às vezes esqueciam de mim, então eu começava a bater no piso de madeira para ver se alguém ouvia e lembrava de levar meu jantar.
Aconteciam também coisas engraçadas, como da vez que fomos arrumar a igreja e bebemos o vinho do padre, adormecemos no chão por trás da cortina do altar. A sorte foi que a irmã nos encontrou antes da missa, nos acordou e nos colocou de castigo.
Depois de um ano minha mãe foi me buscar.
Essas lembranças ficaram para sempre.


A VOLTA AO INTERNATO

Aconteceu aos quarenta anos, já casada, com minha família, meu trabalho, tudo na paz do Senhor. Foi então que uma amiga perguntou se eu queria ensinar culinária. Eu adoro cozinhar, de imediato aceitei sem nem perguntar onde era o lugar. Ela me explicou que as alunas eram meninas internas, adolescentes carentes e que não seria fácil de lidar com elas, mesmo assim aceitei e logo em seguida ela me falou o lugar. Fiquei muito feliz de poder entrar lá novamente. Sabia que muitas coisas tinham mudado, mas alguma coisa daquele tempo era de existir.
            No primeiro dia de aula quando entrei senti um frio na barriga e fiquei muito emocionada, mas não deixei transparecer nada. Quando eu ia passando as meninas me olhavam com um jeito de que não estavam nem aí para o curso.
            A freira veio me mostrar a cozinha onde eu iria ensinar e onde estava o material.
O primeiro dia não foi fácil. Pedi para que todas dessem as mãos e rezamos. Fiz uma receita fácil para que todas participassem. Daí em diante meu trabalho foi de amor, paciência, humildade e perseverança, se alguém não queria assistir à aula não adiantava insistir. Às vezes elas estavam tristes e se isolavam do grupo e eu respeitava aquele momento.
Teve uma que comeu tanto chocolate escondido que teve uma alergia, seu rosto estava todo inchado. Com poucos dias de aula a menina que mais se isolava era quem mais me ajudava. Os dias foram passando e eu já era chamada de tia, sem falar que elas estavam aprendendo as receitas.
No último dia receberíamos as coordenadoras do curso, então guardei o restante do material para no outro dia terminarmos as receitas. Contudo, logo que cheguei notei que faltavam vários materiais e a Irmã que era a diretora havia saído. Falei para as internas que não seria possível fazermos receita alguma, pois faltavam materiais. Ficou aquela confusão, cada uma apontando pra outra. Falei que sentia muito, pois era o encerramento do curso. Esperei algum tempo por lá, até que chegaram com uma bolsa cheia das coisas que tinham escondido. Falei que não me interessava quem foi, o importante era que o material apareceu.
Elas fizeram todas as receitas, a mesa ficou cheia de comida, e neste momento final falei pra elas que tinha vivido lá quando criança e da minha emoção de estar ali e o mais gratificante foi ter conseguido que elas aprendessem, era o primeiro certificado delas e quando saíssem de lá já tinham como trabalhar. Chorei e elas me abraçaram carinhosamente.
Tudo isso foi uma grande lição na minha vida, percebi como Deus prepara os caminhos da nossa vida, nesta vida temos outras vidas que são acontecimentos como este. Sou muito grata ao Senhor pela oportunidade que tive.